23 de julho de 2026
O ouro atingiu seu nível mais alto em duas semanas na quarta-feira, a aproximadamente , impulsionado por uma nova rodada de escalada entre os Estados Unidos e o Irã. Na manhã de quinta-feira, no entanto, grande parte desse ganho já estava se desfazendo. O motivo é um mecanismo que muitos investidores estão subestimando atualmente: esta guerra afeta o ouro não apenas pelo medo, mas sobretudo pelo petróleo.
Dois passos à frente, um para trás
Após semanas de ação lateral e lenta em torno da marca de US$ 4.000, o mercado de ouro finalmente viu algum movimento na quarta-feira. Caçadores de pechinchas entraram em níveis deprimidos enquanto a crise cada vez maior no Oriente Médio elevou a aversão ao risco. O resultado foi a cotação mais alta em duas semanas, com cotações entre aproximadamente US$ 4.130 e US$ 4.137.
No entanto, isso não é euforia. Na manhã de quinta-feira, o contrato futuro de ouro mais negociado (agosto) devolveu cerca de US$ 24, sendo negociado perto de US$ 4.127, perdendo parte do avanço da sessão anterior. Para contextualizar: o ouro permanece cerca de 25 por cento abaixo de sua máxima histórica de US$ 5.598 em janeiro de 2026. O ano até agora tem sido uma história em dois atos para os investidores em ouro — uma abertura espetacular e uma correção prolongada.
O gatilho: Ormuz e o Mar Vermelho
O cenário geopolítico se deteriorou acentuadamente desde o início de julho. Durante a noite até quinta-feira, os militares dos EUA realizaram uma onda de ataques de várias horas contra alvos dentro do Irã, de acordo com o comando regional Centcom. Paralelamente, as forças Houthi apoiadas pelo Irã disseram ter atacado dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho.
Isso coloca em jogo simultaneamente duas das rotas de trânsito de energia mais importantes do mundo: o Estreito de Ormuz, que em tempos normais transporta cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente, e a passagem do Mar Vermelho. Três petroleiros que transportavam petróleo bruto saudita com destino à Ásia já haviam mudado de curso na terça-feira. Quando os armadores evitam rotas, as viagens se alongam e os prêmios de seguro sobem — e o prêmio de risco embutido no preço do petróleo aumenta com eles.
É exatamente o que aconteceu. O Brent para entrega em setembro superou US$ 96 por barril na quinta-feira pela primeira vez desde o início de junho, sendo negociado pela última vez perto de US$ 95,78 — alta de quase dois por cento no dia. O ritmo é o que chama a atenção: no início de julho, o Brent ainda estava em torno de US$ 70. A máxima de abril, de aproximadamente US$ 126, ainda está distante, mas a direção do movimento é inequívoca.
O paradoxo do petróleo: por que a guerra não é uma carona gratuita para o ouro
Este é o cerne da configuração atual, e vai contra o instinto de muitos investidores. A equação intuitiva é: guerra é igual a incerteza, que é igual a ouro mais alto. Isso se sustenta — mas apenas no primeiro passo.
Um preço do petróleo que sobe cerca de 35% em três semanas é inflacionário. A inflação nos EUA já atingiu 4,2% em junho, a maior leitura em três anos. A inflação crescente altera as expectativas para o Federal Reserve, e as altera na direção que prejudica o ouro. Em vez de debater cortes de juros, o mercado agora debate aumentos. Em uma pesquisa da Reuters, a maioria espera que o Fed mantenha as taxas estáveis até o fim do ano, embora os mesmos entrevistados tenham descrito como alta a probabilidade de um aumento este ano.
Para um ativo que não gera rendimento, como o ouro, isso é má notícia. Taxas reais mais altas elevam o custo de oportunidade de manter o metal. O vento geopolítico a favor e o vento monetário contrário, portanto, vêm da mesma fonte — a guerra no Golfo. Qualquer um que esteja lendo o ouro puramente como um barômetro de crise terá dificuldade para dar sentido ao movimento dos preços.
Na próxima semana, o Fed decide
Os próximos dias trazem o teste. Os índices de gerentes de compras dos EUA saem na sexta-feira, seguidos pela reunião do Federal Reserve na semana que vem. O tom que acompanha a decisão importa mais do que a própria decisão: se o Fed sinalizar disposição para tratar o efeito do petróleo como transitório, o ouro tem espaço para subir. Se enfatizar sua determinação em relação à inflação, a pressão sobre o metal provavelmente aumentará.
Tecnicamente, a zona de suporte entre aproximadamente US$ 3.900 e US$ 4.100 continua sendo a área decisiva. Enquanto se mantiver, a atual retração pode ser lida como uma consolidação dentro de uma tendência de alta de longo prazo intacta. Um rompimento sustentado abaixo escureceria significativamente o quadro. No lado positivo, a região de US$ 4.300 a US$ 4.400 é o primeiro obstáculo relevante.
O que isso significa para as ações de mineração e exploração
Para o setor de recursos, o choque do petróleo traz uma segunda dimensão fácil de ignorar: o diesel é um dos maiores itens de custo na mineração a céu aberto. Frotas de transporte, fabricação de explosivos, processamento de minério e — em muitas jurisdições — a geração de energia no local estão todos diretamente expostos ao preço do petróleo. Um movimento do Brent de US$ 70 para acima de US$ 95, portanto, repercute nos custos totais de sustentação (all-in sustaining costs) dos produtores com defasagem, comprimindo as margens sempre que o preço do ouro não consegue acompanhar.
A implicação para os investidores: as linhas de custo merecem um escrutínio minucioso nesta temporada de divulgação de resultados. Os produtores com acesso a energia barata da rede ou capacidade própria de geração estão estruturalmente mais bem posicionados neste ambiente do que aqueles que dependem de geradores a diesel.
Empresas de exploração sem produção estão menos expostas a este efeito — sua base de custos é determinada principalmente pelas taxas de perfuração e pela disponibilidade de sondas. Para elas, a variável decisiva continua sendo o apetite do mercado por financiamento, e isso ainda depende, sobretudo, do próprio preço do ouro e do apetite geral por risco.
Conclusão
A máxima de duas semanas mostra que a demanda por ouro como ativo de refúgio está bem viva. Mas a guerra no Irã ao mesmo tempo fornece ao metal seu próprio adversário, por meio dos preços do petróleo, inflação e expectativas de taxas de juros. A resolução dessa tensão provavelmente virá de Washington e não de Teerã — na reunião do Fed da próxima semana.
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