Publicado: 20 de março de 2026
O preço do ouro está voltando a gerar nervosismo. Desde o início da guerra envolvendo os EUA e Israel contra o Irã, o metal precioso registrou pela segunda vez uma perda diária de 4%. Ontem, o preço à vista caiu intradiariamente até o , seu nível mais baixo desde a forte liquidação após a máxima recorde próxima de USD 5.600 em janeiro. Para muitos participantes do mercado, isso é mais uma prova de quão vulnerável até mesmo um mercado com fundamentos estruturalmente fortes pode permanecer no curto prazo.
Ao mesmo tempo, alguns observadores não interpretam a queda atual como o fim do movimento, mas sim como uma etapa intermediária dentro de um ambiente mais amplo de tensão econômica e fiscal. Segundo Tavi Costa, CEO e fundador da Azuria Capital, o recuo no preço do ouro faz parte de um mercado de alta muito maior e, por essa leitura, ainda em estágio inicial para os metais preciosos. O foco desse argumento não está nas flutuações de curto prazo do mercado, mas em forças de prazo mais longo, como a evolução da dívida global, uma mudança nas políticas de reservas de muitas nações e gargalos estruturais no setor de mineração.
Preço do ouro sofre no curto prazo com exigências de liquidez e expectativas de juros
A pressão imediata sobre o na fase atual é explicada principalmente por um ambiente de mercado mais difícil. Condições de liquidez mais apertadas e mudanças nas expectativas em relação à política de juros pesam sobre o ouro, enquanto a incerteza econômica aumenta simultaneamente por causa da guerra com o Irã. A alta dos preços da energia e a crescente pressão inflacionária agravam ainda mais essa situação.
É precisamente essa combinação que torna a evolução do preço do ouro tão contraditória. Por um lado, o ouro é tradicionalmente visto como proteção contra a incerteza e a tensão geopolítica. Por outro, um ambiente de liquidez mais restrita e de mudança nas expectativas de juros pode pressionar no curto prazo justamente os segmentos de mercado que antes se beneficiavam da busca por segurança. O resultado é um mercado que reage às tensões macroeconômicas com alta volatilidade.
Na perspectiva da Azuria Capital, porém, essa turbulência de curto prazo não é decisiva para a trajetória de longo prazo. Ali, a queda é classificada mais como ruído dentro de um movimento maior de alta. A tese central se apoia menos nos acontecimentos diários do mercado e mais em mudanças fundamentais nas finanças estatais, nas ordens monetárias e na oferta de matérias-primas.
A Azuria Capital vê a dívida global como o núcleo da tendência do preço do ouro
Segundo esta avaliação, o principal fator para o preço do ouro no longo prazo é a dívida global. Os Estados Unidos estão particularmente no centro das atenções. já ultrapassa os US$ 39 trilhões e, diante dos custos da guerra com o Irã, cresce a especulação de que a marca de US$ 40 trilhões possa ser alcançada antes do outono. Para a Azuria Capital, esse desenvolvimento não é apenas um problema fiscal, mas um fator estrutural com potencial para influenciar de forma duradoura a direção da política monetária.
A lógica por trás disso é clara: à medida que a dívida aumenta, também crescem os custos de juros do Estado. Esse peso dos juros desloca outras áreas de gasto e aumenta a pressão sobre os formuladores de políticas para reduzir novamente os custos de financiamento. Com base nisso, a Azuria Capital conclui que os decisores políticos podem priorizar juros mais baixos no médio prazo, mesmo que os dados de inflação ou os sinais econômicos clássicos indiquem, na verdade, cautela. Nessa perspectiva, isso seria um forte impulso para o preço do ouro.
Essa visão também foi o foco de uma apresentação da Azuria Capital na conferência PDAC 2026, a maior convenção de mineração do mundo. Nela, o ouro foi descrito como parte de um ponto de inflexão histórico para os ativos tangíveis. Apesar do desempenho já forte no ano anterior, o setor ainda é considerado sub-representado no comportamento dos investidores, segundo essa interpretação. Soma-se a isso uma comparação destinada a ilustrar a mudança estrutural: de acordo com essa apresentação, as reservas de ouro dos EUA hoje correspondem a apenas cerca de 3% da dívida federal americana, enquanto essa participação ainda era de aproximadamente 51% na década de 1940.
A Azuria Capital vê a dívida global como o núcleo da tendência do preço do ouro
Além da questão da dívida, a Azuria Capital aponta para outro movimento estrutural: a mudança no comportamento global das reservas. Segundo essa análise, muitos países, especialmente os mercados emergentes, estão redirecionando cada vez mais sua estratégia de reservas, afastando-se dos títulos do Tesouro dos EUA e aproximando-se do ouro. Para o preço do ouro, esse é um fator decisivo, pois cria uma fonte adicional de demanda que não depende apenas dos fluxos de investidores ocidentais.
Na avaliação da Azuria Capital, essa tendência é ainda reforçada pela perspectiva de um dólar americano mais fraco por um período prolongado. Quando os Estados passam a confiar mais em reservas físicas e menos em instrumentos de dívida dos EUA, isso altera o papel do ouro no sistema financeiro internacional. O preço do ouro passa então a aparecer não apenas como um indicador de crise, mas também como expressão de uma reorganização mais ampla das relações monetárias e de reservas.
É precisamente por isso que a queda atual não é interpretada como uma ruptura fundamental no sentimento do mercado. Antes, sob esta perspetiva, trata-se da discrepância entre a reação de curto prazo do mercado e o contexto de longo prazo. O preço do ouro pode estar sob pressão no curto prazo, mas, segundo este argumento, os fatores estruturais permanecem intactos.
As ações de mineradoras também continuam a fazer parte da tese do preço do ouro
A perspetiva da Azuria Capital não se limita ao próprio metal. As ações de mineração de ouro também são descritas como parte de um ciclo inicial. Dá-se especial ênfase à diferença entre o preço do metal e a avaliação de muitos produtores. Embora o ouro e a prata tenham subido acentuadamente, numerosas empresas mineiras continuam a ser negociadas com múltiplos de avaliação comparativamente moderados.
Isto é relevante para o preço do ouro na medida em que esta discrepância indica um ambiente de investidores ainda cético. Na visão da Azuria Capital, parte do mercado ainda duvida de que os preços mais elevados dos metais preciosos possam ser sustentados. É precisamente esse ceticismo que se reflete nas avaliações. Ao mesmo tempo, porém, muitos produtores já estão a alcançar margens mais comuns noutros setores, enquanto os seus custos de produção permanecem significativamente abaixo dos preços atuais dos metais.
Além disso, existe um problema estrutural de oferta. Na PDAC, foram citados dados que mostram que, nos últimos dois anos, praticamente não houve novas descobertas significativas. Para a história moderna da mineração, isto seria uma constatação extraordinária. Isso está ligado a anos de baixo investimento em exploração e desenvolvimento. Segundo esta interpretação, isso resulta num perfil futuro de oferta mais restrito — e, assim, num ambiente que poderia sustentar o preço do ouro e todo o setor de metais preciosos por um período mais longo.
Em suma, surge um quadro cheio de tensão: no curto prazo, o preço do ouro continua vulnerável a fortes recuos desencadeados pela liquidez, pelas expectativas de taxas de juro e pela incerteza geopolítica. No longo prazo, porém, o mercado é moldado por fatores que, na avaliação da Azuria Capital, vão muito mais fundo — desde os encargos da dívida e dos juros até à reafetação de reservas e a um lado da oferta mineira mais reduzido.
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